• SEJA BEM-VINDO

MP-BA denuncia três policiais militares por execução de jovem de 24 anos em Mucuri

Publicado em: 19/08/2026 Atualizado:: agosto 19, 2026

 

Quase quatro anos depois de uma família iniciar uma luta por respostas sobre o desaparecimento de Alex Vila Nova Santos, de 24 anos, o caso ganhou um novo e decisivo capítulo. O Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA), por meio do Grupo de Atuação Especial Operacional de Segurança Pública (Geosp), denunciou três policiais militares pela suposta execução do jovem, desaparecido desde setembro de 2022, em Mucuri, no Extremo Sul da Bahia.

Foram denunciados Arthur Garcia dos Santos, Wilton Gomes de Souza e Winder dos Santos. A denúncia foi apresentada na terça-feira (18) à Vara do Tribunal do Júri da Comarca de Mucuri. Segundo o MP-BA, os policiais teriam cometido homicídio qualificado por motivo torpe e mediante recurso que impossibilitou a defesa da vítima, pois Alex estaria rendido e algemado quando teria sido morto.

O Ministério Público pediu à Justiça a prisão preventiva dos três denunciados e requer que eles sejam processados e julgados pelo Tribunal do Júri. O órgão também solicitou, em caso de condenação, a perda dos cargos públicos e a reparação dos danos causados aos familiares de Alex.

 

O desaparecimento

Segundo a acusação, Alex foi abordado no dia 8 de setembro de 2022, no bairro Aroeira, em Mucuri. O jovem trafegava de bicicleta quando foi interceptado pelos policiais. De acordo com as investigações reunidas pelo Ministério Público, Alex foi algemado e colocado dentro da viatura.

A partir daquele momento, nunca mais foi visto pela família. Seu corpo também jamais foi localizado.

Para o Ministério Público, os elementos reunidos durante quase quatro anos de investigação indicam que Alex permaneceu sob a custódia exclusiva dos policiais e teria sido executado. A acusação sustenta ainda que seu corpo teria sido ocultado como forma de assegurar a impunidade dos crimes.

A denúncia apresentada agora pelo MP-BA traz de volta um caso acompanhado pelo Liberdade News desde os primeiros dias do desaparecimento.

Em 13 de setembro de 2022, apenas cinco dias depois do sumiço, familiares de Alex procuraram o Jornal Liberdade, então transmitido pela Rádio Eldorado FM, e conversaram com o jornalista Edvaldo Alves. Naquela ocasião, a família já questionava duramente a versão apresentada sobre o desaparecimento e cobrava investigação.

A madrasta de Alex, Adriana Silva Santos, relatou à época que buscava respostas junto às autoridades e havia procurado a então coordenadora da 8ª Coorpin, Valéria Chaves. A família sustentava que a abordagem não teria ocorrido dentro da normalidade e questionava o que havia acontecido depois que Alex foi colocado na viatura.

A mãe, Luciana Vila Nova, fez um dos apelos mais emocionantes durante a mobilização. Em entrevista divulgada pelo Liberdade News, ela pediu que o filho fosse devolvido e descreveu a dor vivida pela família desde o desaparecimento. A ex-companheira de Alex e mãe da filha dele também participou das cobranças. Segundo ela, a criança perguntava constantemente onde estava o pai.

 

Versão contestada pela família

Desde 2022, um dos principais pontos questionados pelos familiares era a versão segundo a qual Alex teria conseguido fugir depois de ser colocado na viatura.

Em reportagem publicada pelo Liberdade News em 21 de setembro de 2022, a família afirmou que Alex teria saído do local algemado no camburão da viatura e contestou a alegação de que ele posteriormente teria escapado.

Segundo a ocorrência registrada pelos policiais à época, Alex teria conseguido passar as mãos algemadas para a frente do corpo e, posteriormente, teria fugido em direção a uma área de mangue durante um suposto descuido da equipe. A família nunca acreditou nessa narrativa.

Os familiares também questionaram uma ocorrência registrada no dia seguinte ao desaparecimento, na qual foram apresentadas drogas que, segundo os policiais, teriam sido apreendidas com Alex. A família contestou a acusação e afirmou que buscaria Justiça.

 

MP aponta possível tentativa de criar versão falsa

Agora, a acusação do Ministério Público apresenta uma versão muito mais grave sobre o que teria ocorrido após o desaparecimento.

Segundo o MP-BA, os policiais teriam construído uma versão falsa para encobrir o desaparecimento de Alex. No dia seguinte aos fatos, foi registrado boletim de ocorrência afirmando que o jovem teria fugido após a abordagem.

As investigações também apontam que teria sido utilizado um telefone celular apreendido em outra diligência para enviar mensagens à ex-companheira de Alex, simulando que o próprio jovem havia deixado a cidade voluntariamente.

Conforme o Ministério Público, as investigações telemáticas encontraram indícios de ligação entre os aparelhos utilizados e um dos denunciados. Para a acusação, esses elementos reforçam a hipótese de fraude destinada a dificultar a descoberta do que realmente aconteceu.

 

Reconstituição do caso em 2024

Dois anos depois do desaparecimento, o caso ainda permanecia sem resposta e a família continuava cobrando Justiça.

Em 4 de novembro de 2024, o Liberdade News acompanhou uma reprodução simulada dos fatos realizada em Mucuri. A operação reuniu policiais civis e militares, peritos do Departamento de Polícia Técnica (DPT) e integrantes do Ministério Público.

A reconstituição buscou comparar as versões apresentadas e reconstruir desde a abordagem até o ponto em que teria ocorrido a alegada fuga. O promotor Pedro Nogueira Coelho também acompanhou os trabalhos, enquanto a família permanecia na expectativa de finalmente descobrir o destino de Alex.

A defesa dos policiais, naquela ocasião, também defendeu que a perícia esclarecesse os fatos e que a Justiça fosse feita tanto para os familiares quanto para os policiais envolvidos.

 

Corpo nunca foi encontrado

Apesar das investigações, diligências e da reprodução simulada, existe uma ferida que permanece aberta: o corpo de Alex Vila Nova Santos nunca foi localizado.

Para o MP-BA, entretanto, o conjunto de provas reunido é suficiente para sustentar a acusação de que o jovem foi morto enquanto estava sob custódia dos policiais e de que posteriormente houve ocultação do cadáver.

Em relação aos crimes conexos de ocultação de cadáver, peculato e fraude processual, o Ministério Público informou que ofereceu denúncia perante a Justiça Militar.

 

Quase quatro anos de cobranças por Justiça

A denúncia representa uma mudança importante no estágio do caso. Em setembro de 2022, uma família procurava o Liberdade News perguntando simplesmente: onde está Alex?

Nos anos seguintes vieram denúncias, cobranças públicas, investigação, atuação da Corregedoria, perícias e uma reconstituição. Agora, em agosto de 2026, três policiais que participaram da ocorrência são formalmente acusados pelo Ministério Público de envolvimento na morte do jovem.

A apresentação da denúncia, contudo, não significa condenação. Caberá ao Poder Judiciário analisar o pedido do Ministério Público, decidir sobre as prisões preventivas e sobre o prosseguimento da ação penal. Os denunciados têm direito à ampla defesa e ao contraditório.

Para a família, que desde os primeiros dias contestou a versão de que Alex teria simplesmente fugido algemado e desaparecido sem deixar rastros, a denúncia do Ministério Público representa um novo capítulo de uma batalha que atravessou quase quatro anos.

Mas uma pergunta que acompanha o caso e o procedimento do Ministério Público desde setembro de 2022 continua sem resposta: Onde está o corpo de Alex Vila Nova Santos?

 

Fonte: Liberdade News


JORNAL INDEPENDENTE


Siga as redes sociais